Além de Corno é Viado
por Rufus
Sinceramente nunca atentei para esta possibilidade, ou para esta certeza, como defende Millôr Fernandes, mas Bentinho, protagonista de Dom Casmurro, além de corno é viado.
Sim, porque não restam dúvidas de que Capitu deu pro Escobar, mas lendo o livro sob outra ótica, começo a achar que o sofrimento de Bentinho era duplo: fora traído não só pela mulher com quem casara mas também pelo amigo por quem era apaixonado.
Pois vamos às evidências, como destacadas pelo Millôr:
(pág. 868)
Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.
(mesma página)
Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro... Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou....
(pág. 876)
Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres.
(pág. 883)
Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa... mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.
(mesma página)
Fui levá-lo à porta... Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.
(mesma página)
Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
- É o Escobar, disse eu.
(pág. 887)
- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração...
- Escobar, Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça... Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.
(pág. 889)
Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as ausas, como se não me visse desde longos meses.
- Você janta comigo, Escobar?
-Vim para isto mesmo.
(pág. 900)
Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.
(pág. 901)
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou...
(pág. 902)
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.
(pág. 913)
Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.
(pág. 914)
A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na totla ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força.
(pág. 925/926) Depois da morte de Escobar
Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória escrita embaixo, não nas costas do cartão: "Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70".
(pág. 845) Depois de beijar Capitu
De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho: - Sou Homem!
Como podemos ver, são suspeitíssimas as passagens destacadas. Não restam-me dúvidas a respeito da condição do senhor Bentinho, que além de corno era viado. Agora me pergunto: era também Machado gay?
Sinceramente nunca atentei para esta possibilidade, ou para esta certeza, como defende Millôr Fernandes, mas Bentinho, protagonista de Dom Casmurro, além de corno é viado.
Sim, porque não restam dúvidas de que Capitu deu pro Escobar, mas lendo o livro sob outra ótica, começo a achar que o sofrimento de Bentinho era duplo: fora traído não só pela mulher com quem casara mas também pelo amigo por quem era apaixonado.
Pois vamos às evidências, como destacadas pelo Millôr:
(pág. 868)
Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.
(mesma página)
Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro... Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou....
(pág. 876)
Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres.
(pág. 883)
Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa... mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.
(mesma página)
Fui levá-lo à porta... Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.
(mesma página)
Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
- É o Escobar, disse eu.
(pág. 887)
- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração...
- Escobar, Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça... Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.
(pág. 889)
Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as ausas, como se não me visse desde longos meses.
- Você janta comigo, Escobar?
-Vim para isto mesmo.
Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.
(pág. 901)
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou...
(pág. 902)
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.
(pág. 913)
Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.
(pág. 914)
A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na totla ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força.
(pág. 925/926) Depois da morte de Escobar
Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória escrita embaixo, não nas costas do cartão: "Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70".
(pág. 845) Depois de beijar Capitu
De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho: - Sou Homem!
Como podemos ver, são suspeitíssimas as passagens destacadas. Não restam-me dúvidas a respeito da condição do senhor Bentinho, que além de corno era viado. Agora me pergunto: era também Machado gay?

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