Sunday, July 10, 2005

O Suicídio de R. Leandro.

por Rufus.

Vinte e cinco anos, muito pouco cabelo - careca raspada para diminuir o impacto visual da impressionante calvície frontal.


Corpo deformado, estranho, peitoral gordo, mamas adiposas, barriga-avental sempre muito suada, palidez mórbida, olheiras cadavéricas, óculos sem armação de lentes turvas de tão antigas, barba constantemente a fazer, boca entreaberta a despejar saliva de tempos em tempos, em fios grossos que são sempre sugados de volta rapidamente, no susto.


Inteligência absolutamente brilhante. O homem mais inteligente, provavelmente, de todo o bairro, senão da zona sul do Rio de Janeiro. Além de inteligente, culto. Leu em prematura idade a maioria dos grandes clássicos, biografias dos autores, resenhas sobre as obras e os originais.

Poliglota. Aprendera várias línguas ainda criança, com uma coleção barata de banca de jornal.
Era amigo do jornaleiro, mas odiava figurinhas e gibis de heróis. Lia revistas científicas, de arte, de arquitetura e de pornografia. Estas últimas levava para casa escondido e devolvia depois, para não ter que guardar escondido. Hoje em dia lê apenas o material pornográfico e toma conta da banca.

Começou a tomar gosto pelos mangás, especificamente pelos que contém algum tipo de perversão.
Esconde uma tara por japonesas e por heroínas de mangá, que não têm pelos pubianos. Parece que no Japão é proibido desenhar pentelho nas personagens. Pura tara. É um maníaco sexual mas nunca beijou uma mulher na vida.


Anda para todo canto com uma mochila, dentro da mochila um caderno; neste caderno anota todas as perversões que pensa, para se masturbar depois, em casa, sempre no banheiro - apesar de morar sozinho, depois que sua mãe morreu louca.


Seu banheiro, aliás, é um altar à masturbação. Na parede, centenas de fotos pornográficas sobrepostas, numa coleção iniciada há muitos anos. Para cada mulher, um nome. Lembra inclusive as xarás entre si, quando sua imaginação não lhe vinha com um nome inteiramente original. Cada vez que entra lá abre uma página do caderno, escolhe uma garota qualquer - a que olha para ele com mais volúpia - e imagina a cena, lida antes em voz alta, rouca e pausada. Ejacula apertando os olhos, não raro com baba escorrendo pelo peito cabeludo e suor riscando a testa. Às vezes experimenta o próprio sêmem, imaginando a mulher lambendo, em vez dele. Outras vezes, limpa nas próprias fotos.


Tem uma diarista que trabalha para ele toda terça e quinta, mas que não pode entrar no banheiro. No banheiro não pode, nem querendo usar. Aprendeu a desentupir e remendar canos sozinho para não ter que chamar bombeiro. Acomoda as banhas no trono, espera o coração acalmar, limpa-se e deixa o aposento intocado até sua próxima visita. É o ritual.


Decidiu ontem que vai morrer em breve, mas o suicídio vem acontecendo desde a mais tenra idade.