Rubinho
por Rufus
Rubinho era um garoto levado, sua aparência logo caguetava. Tinha cara de moleque danado e aprontador, só pelo olhar e pelo sorriso torto já se sabia que vinha peraltagem pela frente.
Muitos, principalmente Cosme, o jornaleiro da rua, e Seu Rui, o porteiro da frente, diziam que ele era mal criado e que seus pais não estabeleciam limites, o que era mentira colossal. Seu Tuta, o pai, sempre dava uma surra de deixar bunda vermelha no filho sempre que aprontava alguma das suas, variando na força e no número de palmadas e cascudos conforme a gravidade da troça do moleque, a quem costumava chamar de Exuzinho. Era sempre - Vem cá Exuzinho! Que hoje você vai apanhar de soco inglês! - e deixava os dedos marcarem o coco do sacana, que depois de chorar muito, passado o susto, ia pro quartinho ficar rindo sozinho, cuidando dos amassados na cabeça. Tio João sempre brincava que o garoto estava se acostumando à solitária pra quando ficasse homem feito e fosse enquadrado no xilindró.
Era um negrinho bem formadinho, de crânio redondinho e pescoço fino, gostava de andar descalço, diziam que um dia ia ser maratonista que nem os quenianos. Os dentes bem branquinhos conquistavam as menininhas, que se derretiam com os truques do rapaz, Dadá que o diga.
Dadá uma vez estava enrolando os cabelos olhando os ventos sentada no meio-fio quando veio Rubinho todo maroto, de chortinho azul da seleção canarinho e descalço, descendo a rua com uma florzinha rosa na mão. Chegou perto, olhou nos olhos da menina, sorriu torto, cheirou seu pescocinho de mulatinha e começou a marotagem - Dadá, tu tá cheirando mal que nem gambá! Toma essa flor aqui pra ver se te perfuma com cheiro de rosas! - O rosas soava tipicamente carioca, vagaroso, jeitoso, com o ró e o som de xis no final se arrastando. A provocação dita milhares de vezes mais lenta do que o agrado.
A menina primeiro ressabiou-se, mas logo sorriu o sorriso mais bobo do mundo enquanto cheirava a flor - Rubinho, isso cheira bem que nem perfume de vó mas num é uma rosa, só a flor que é rosa! - Rubinho se afastou todo sorriso no “permufe de vó”, deixando a mocinha encantada, mas foi só ver a Vanessa, toda russinha e dengosinha atravessando a rua que virou pra mulatinha e tirou-lhe a flor num golpe rapidíssimo - Então devolve pra mim, sua leprosa fedorenta! - dando a flor com cheiro de rosas pra outra, fazendo a preterida desandar a chorar.
O jornaleiro e o porteito caguetaram. Rubinho apanhou, mas sabia que a Dadá não tinha chorado por causa da rosa, tinha chorado - Por causa que ela quer se ajuntá comigo, pai! - Era verdade, mas ainda assim Seu Tuta meteu uma cotovelada no moleque que deixou ele sem enxergar com o olho esquerdo uma semana, despertando a pena de todas as menininhas da rua. Meu pai só se fode, pensava ele enquanto passava a mão nas pernas das garotinhas sensibilizadas. Orgulho do papai.
Era assim, o danado. Jamais haveria surra ou lição que fizesse o moleque parar de marotagem, o sorriso torto denunciava. Não é que Rubinho era mal criado pelos pais; nem Deus sabia o que fazer aquele diabo.
Rubinho era um garoto levado, sua aparência logo caguetava. Tinha cara de moleque danado e aprontador, só pelo olhar e pelo sorriso torto já se sabia que vinha peraltagem pela frente.
Muitos, principalmente Cosme, o jornaleiro da rua, e Seu Rui, o porteiro da frente, diziam que ele era mal criado e que seus pais não estabeleciam limites, o que era mentira colossal. Seu Tuta, o pai, sempre dava uma surra de deixar bunda vermelha no filho sempre que aprontava alguma das suas, variando na força e no número de palmadas e cascudos conforme a gravidade da troça do moleque, a quem costumava chamar de Exuzinho. Era sempre - Vem cá Exuzinho! Que hoje você vai apanhar de soco inglês! - e deixava os dedos marcarem o coco do sacana, que depois de chorar muito, passado o susto, ia pro quartinho ficar rindo sozinho, cuidando dos amassados na cabeça. Tio João sempre brincava que o garoto estava se acostumando à solitária pra quando ficasse homem feito e fosse enquadrado no xilindró.
Era um negrinho bem formadinho, de crânio redondinho e pescoço fino, gostava de andar descalço, diziam que um dia ia ser maratonista que nem os quenianos. Os dentes bem branquinhos conquistavam as menininhas, que se derretiam com os truques do rapaz, Dadá que o diga.
Dadá uma vez estava enrolando os cabelos olhando os ventos sentada no meio-fio quando veio Rubinho todo maroto, de chortinho azul da seleção canarinho e descalço, descendo a rua com uma florzinha rosa na mão. Chegou perto, olhou nos olhos da menina, sorriu torto, cheirou seu pescocinho de mulatinha e começou a marotagem - Dadá, tu tá cheirando mal que nem gambá! Toma essa flor aqui pra ver se te perfuma com cheiro de rosas! - O rosas soava tipicamente carioca, vagaroso, jeitoso, com o ró e o som de xis no final se arrastando. A provocação dita milhares de vezes mais lenta do que o agrado.
A menina primeiro ressabiou-se, mas logo sorriu o sorriso mais bobo do mundo enquanto cheirava a flor - Rubinho, isso cheira bem que nem perfume de vó mas num é uma rosa, só a flor que é rosa! - Rubinho se afastou todo sorriso no “permufe de vó”, deixando a mocinha encantada, mas foi só ver a Vanessa, toda russinha e dengosinha atravessando a rua que virou pra mulatinha e tirou-lhe a flor num golpe rapidíssimo - Então devolve pra mim, sua leprosa fedorenta! - dando a flor com cheiro de rosas pra outra, fazendo a preterida desandar a chorar.
O jornaleiro e o porteito caguetaram. Rubinho apanhou, mas sabia que a Dadá não tinha chorado por causa da rosa, tinha chorado - Por causa que ela quer se ajuntá comigo, pai! - Era verdade, mas ainda assim Seu Tuta meteu uma cotovelada no moleque que deixou ele sem enxergar com o olho esquerdo uma semana, despertando a pena de todas as menininhas da rua. Meu pai só se fode, pensava ele enquanto passava a mão nas pernas das garotinhas sensibilizadas. Orgulho do papai.
Era assim, o danado. Jamais haveria surra ou lição que fizesse o moleque parar de marotagem, o sorriso torto denunciava. Não é que Rubinho era mal criado pelos pais; nem Deus sabia o que fazer aquele diabo.

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