Terra de Fartas Brisas
por R. Balbi
Pedro arrumou os cabelos lentamente com as mãos num rápido movimento, apertou os olhos ao olhar pela fresta da cortina - vendo os raios de Sol flamulando no espaço azul – fechou a mala e levantou-se do chão com suas velhas botas. Os primeiros passos pesaram tanto com o suspiro que deu que hesitou em partir, mas partiu.
O simples ato de dar as costas foi como olhar do alto de um desfiladeiro, ver o mundo miúdo lá embaixo, sentir o vento e a vertigem sugando a alma e se deixar levar, pela vida, ao salto.
Tal qual uma interminável queda, deu vertigem o caminho que fez até o trem pelo solo rachado e seco, sob o severo vênus quente daquela cidade do oeste que jamais fora agraciada com um pequeno sopro de vento. Tudo parecia imóvel até o trem aparecer, como uma potente lata de ferro bruta e feroz como um touro, bufando fumaça sem cogitar mudar seu rumo uma lasca. A ebulição só teve fim quando a locomotiva parou e se moldou ao mundo estático à sua volta, conforme a poeira e a foligem iam descendo e o cheiro de queimado modificava levemente a experiência sensorial do local.
A locomotiva viera só pra ele. Todos sabiam que naquela cidade não passava trem há anos. Nenhum passageiro saltou na estação e somente Pedro e seu espírito encardido subiram a pequena escada que levava ao interior do vagão de passageiros.
A cidade expelia ele como um furúnculo vertendo pus para fora do corpo. Sentia-se exatamente assim. Pus escorrendo na pele. Chorou e assoou o nariz num pedaço de papel onde podia-se ver rabiscado o esboço de um poema que jamais foi escrito e, por esta razão, jamais encontrou seu destino. Amassou e jogou pela janela, enquanto o lugar preparava-se para um último espasmo que faria novamente a locomotiva bufar furiosa e partir.
E lá ficou o poema esboçado, amassado num pedaço de papel sujo de catarro, jogado ao Sol quente, contemplando a beleza que não vingou. Terminou em solo árido.
Pedro não. Foi procurar a calma em terra de fartas brisas e achou.
Pedro arrumou os cabelos lentamente com as mãos num rápido movimento, apertou os olhos ao olhar pela fresta da cortina - vendo os raios de Sol flamulando no espaço azul – fechou a mala e levantou-se do chão com suas velhas botas. Os primeiros passos pesaram tanto com o suspiro que deu que hesitou em partir, mas partiu.
O simples ato de dar as costas foi como olhar do alto de um desfiladeiro, ver o mundo miúdo lá embaixo, sentir o vento e a vertigem sugando a alma e se deixar levar, pela vida, ao salto.
Tal qual uma interminável queda, deu vertigem o caminho que fez até o trem pelo solo rachado e seco, sob o severo vênus quente daquela cidade do oeste que jamais fora agraciada com um pequeno sopro de vento. Tudo parecia imóvel até o trem aparecer, como uma potente lata de ferro bruta e feroz como um touro, bufando fumaça sem cogitar mudar seu rumo uma lasca. A ebulição só teve fim quando a locomotiva parou e se moldou ao mundo estático à sua volta, conforme a poeira e a foligem iam descendo e o cheiro de queimado modificava levemente a experiência sensorial do local.
A locomotiva viera só pra ele. Todos sabiam que naquela cidade não passava trem há anos. Nenhum passageiro saltou na estação e somente Pedro e seu espírito encardido subiram a pequena escada que levava ao interior do vagão de passageiros.
A cidade expelia ele como um furúnculo vertendo pus para fora do corpo. Sentia-se exatamente assim. Pus escorrendo na pele. Chorou e assoou o nariz num pedaço de papel onde podia-se ver rabiscado o esboço de um poema que jamais foi escrito e, por esta razão, jamais encontrou seu destino. Amassou e jogou pela janela, enquanto o lugar preparava-se para um último espasmo que faria novamente a locomotiva bufar furiosa e partir.
E lá ficou o poema esboçado, amassado num pedaço de papel sujo de catarro, jogado ao Sol quente, contemplando a beleza que não vingou. Terminou em solo árido.
Pedro não. Foi procurar a calma em terra de fartas brisas e achou.

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